Kali365: o Kit de Phishing-as-a-Service que Rouba Contas Microsoft 365 Sem Precisar da Sua Senha

Equipe Saferinfo 9 min de leitura
Logo do Microsoft 365 com badge 'Token Sequestrado' representando o ataque Kali365

O FBI emitiu, em 21 de maio de 2026, um alerta público urgente sobre o Kali365 — uma plataforma de Phishing-as-a-Service (PhaaS) que permite a qualquer criminoso, mesmo sem conhecimento técnico avançado, sequestrar contas do Microsoft 365 sem precisar da senha da vítima e sem ser bloqueado pelo MFA.

O alerta (número I-052126-PSA), publicado pelo Internet Crime Complaint Center (IC3), descreve como a plataforma — detectada pela primeira vez em abril de 2026 e distribuída via Telegram — combina inteligência artificial, automação e uma técnica chamada device code phishing para roubar tokens OAuth e manter acesso contínuo às contas comprometidas.

O que é o Kali365

O Kali365 é um kit de Phishing-as-a-Service: uma plataforma “pronta para usar” que empacota toda a infraestrutura necessária para conduzir ataques sofisticados contra usuários do Microsoft 365 — e a oferece via Telegram para qualquer interessado, com ou sem conhecimento técnico.

Antes de plataformas como essa, um ataque desse nível exigia domínio técnico considerável: configuração de servidores, desenvolvimento de páginas de captura, gerenciamento de tokens OAuth e análise de logs. O Kali365 elimina essa barreira ao oferecer:

  • Iscas geradas por IA — e-mails de phishing que imitam perfeitamente comunicações do Microsoft 365, Teams, OneDrive e Outlook
  • Modelos de campanhas automatizadas — o atacante escolhe o alvo e o tipo de ataque; a plataforma cuida do restante
  • Painel de rastreamento em tempo real — monitoramento de quem clicou, inseriu o código e teve o token capturado
  • Captura e armazenamento de tokens OAuth — prontos para uso imediato pelo atacante

Toda essa sofisticação cabe dentro de uma assinatura no Telegram. O custo de entrada para comprometer contas corporativas caiu drasticamente.

Como o ataque funciona em 4 fases

O Kali365 usa uma técnica chamada device code phishing (phishing de código de dispositivo), que subverte um fluxo de autenticação legítimo da Microsoft. Entender cada fase é fundamental para reconhecer e bloquear o ataque.

Fase 1 — A isca

A vítima recebe um e-mail fraudulento que imita uma comunicação oficial da Microsoft. A mensagem pode simular:

  • Um aviso de acesso suspeito pedindo verificação do dispositivo
  • Uma notificação do Teams sobre um arquivo compartilhado
  • Um comunicado sobre renovação de licença do Microsoft 365
  • Um pedido de autenticação de dispositivo enviado pela TI corporativa

O e-mail instrui a vítima a acessar aka.ms/devicelogin — que é, de fato, uma página genuína da Microsoft — e inserir um código de dispositivo fornecido na mensagem.

Fase 2 — A autorização involuntária

Este é o núcleo do ataque: o código que a vítima insere na página real da Microsoft não autentica o dispositivo da vítima. É o código gerado pelo atacante para autorizar o aplicativo do atacante a acessar a conta da vítima.

A vítima navega até um site verdadeiro (Microsoft), realiza uma autenticação legítima — podendo inclusive completar o MFA normalmente — e ao final autoriza, sem perceber, o acesso externo à sua própria conta.

Do ponto de vista da Microsoft, a autorização foi concedida pelo usuário legítimo, no site legítimo, com autenticação bem-sucedida. Não há nenhum sinal de alerta no processo.

Fase 3 — O roubo do token OAuth

Com a autorização concedida, o Kali365 captura o token OAuth emitido pela Microsoft. Esse token é uma credencial de acesso digital que:

  • Não requer senha para ser utilizado
  • Não requer MFA para ser utilizado (o MFA já foi completado pela vítima durante a autorização)
  • Tem validade longa — tipicamente dias ou semanas, podendo ser renovado automaticamente
  • Funciona em múltiplos serviços — e-mail, calendário, OneDrive, Teams, SharePoint

O token é armazenado no painel do Kali365 e fica disponível para o atacante usar imediatamente.

Fase 4 — Persistência silenciosa

Com o token em mãos, o atacante opera dentro do ambiente Microsoft 365 da vítima de forma praticamente invisível:

  • Lê e-mails e acessa documentos confidenciais
  • Configura encaminhamento automático de e-mails para contas externas
  • Acessa e exfiltra arquivos do OneDrive e SharePoint
  • Adiciona novos dispositivos ou aplicativos para garantir acesso mesmo após a expiração do token
  • Age como se fosse o usuário legítimo — sem senha, sem MFA

Para equipes de TI, esse acesso é frequentemente indistinguível de uma sessão legítima.

Por que o MFA não é suficiente para bloquear o Kali365

Este é o ponto mais crítico — e mais contraintuitivo — de todo o ataque: o MFA é contornado, não quebrado.

A autenticação multifator protege contra o uso indevido de senhas roubadas. Mas no ataque do Kali365, a senha nunca é usada pelo atacante. O que ele obtém é um token OAuth — e esse token só é emitido depois que a vítima completou com sucesso toda a autenticação, incluindo o MFA.

Em outras palavras: o MFA da vítima funcionou perfeitamente. O problema é que ela, ao concluir o MFA, autorizou involuntariamente o acesso do atacante.

Isso demonstra por que MFA sozinho não é suficiente em ambientes corporativos. É necessário combinar MFA com:

  • Políticas de Acesso Condicional no Microsoft Entra
  • Monitoramento de consentimentos OAuth
  • Restrições ao fluxo de código de dispositivo

Quem está em risco

Qualquer organização que utiliza o Microsoft 365 como plataforma de e-mail e colaboração está exposta — mas o impacto é mais crítico em:

PerfilRisco
Empresas com dados confidenciais no M365Alto
Usuários executivos e com acesso privilegiadoMuito alto
Organizações sem políticas de Acesso CondicionalMuito alto
Setores de saúde, finanças, advocacia e governoAlto (dados sensíveis + obrigações regulatórias)
Ambientes com MFA mas sem auditoria de OAuthAlto

No Brasil, onde a adoção do Microsoft 365 cresceu expressivamente nos últimos anos, o vetor é especialmente relevante. A LGPD exige notificação à ANPD e aos titulares afetados em caso de acesso não autorizado a dados pessoais — e um token OAuth roubado que permitiu acesso a e-mails e documentos com dados de clientes ou colaboradores se enquadra plenamente nessa obrigação.

Como se proteger: recomendações do FBI

O FBI publicou recomendações específicas junto ao alerta. Veja como implementá-las:

1. Restringir o fluxo de código de dispositivo via Acesso Condicional

No Microsoft Entra admin center, crie uma política de Acesso Condicional que bloqueie ou exija aprovação explícita para o fluxo de código de dispositivo. O FBI orienta a auditar o uso existente antes de implementar o bloqueio — alguns dispositivos legítimos (impressoras, TVs corporativas) usam esse fluxo.

Caminho: Entra admin center → Proteção → Acesso Condicional → Nova política → Condições → Fluxos de autenticação → Fluxo de código de dispositivo.

2. Auditar consentimentos OAuth ativos

Revise quais aplicativos de terceiros possuem tokens OAuth ativos nas contas da organização. Revogue consentimentos suspeitos ou não reconhecidos.

Caminho: Entra admin center → Aplicativos empresariais → Permissões → Revisão de permissões de usuários.

3. Bloquear políticas de transferência de autenticação

Configure políticas que impeçam tokens de serem usados fora do contexto esperado — como de IPs ou regiões geográficas não reconhecidos.

4. Alertas de monitoramento de identidade

Ative alertas automáticos para:

  • Autorizações de novos aplicativos OAuth por usuários comuns
  • Acessos via tokens a partir de IPs não reconhecidos
  • Adição de novos dispositivos à conta
  • Regras de encaminhamento de e-mail criadas sem solicitação do usuário

5. Treinamento específico sobre device code phishing

Oriente todos os usuários: nunca inserir um código em aka.ms/devicelogin a menos que eles próprios tenham iniciado o processo (ex: conectando uma TV ou impressora). Solicitações legítimas desse tipo nunca chegam por e-mail espontâneo.

O que fazer se você foi vítima

Se suspeitar que uma conta foi comprometida pelo Kali365 ou técnica similar:

  1. Revogue imediatamente todos os tokens OAuth da conta — no Entra: Usuários → selecionar usuário → Revogar sessões
  2. Redefina a senha do usuário afetado
  3. Remova aplicativos não reconhecidos com acesso à conta
  4. Verifique e remova regras de encaminhamento de e-mail não autorizadas
  5. Audite a atividade recente: e-mails lidos, arquivos acessados, compartilhamentos criados
  6. Registre uma denúncia no IC3 em www.ic3.gov, incluindo e-mails suspeitos recebidos, logins não autorizados e dispositivos adicionados
  7. Notifique o DPO ou equipe de segurança para avaliação de impacto e verificação de obrigações sob a LGPD

Perguntas frequentes

O Kali365 afeta apenas o Microsoft 365? Sim, segundo o alerta do FBI, o Kali365 é direcionado especificamente ao ecossistema Microsoft 365. Técnicas similares de token hijacking existem para outras plataformas (Google Workspace, por exemplo), mas o Kali365 foca no fluxo OAuth da Microsoft.

Com MFA ativo, estou protegido? Não completamente. O Kali365 não rouba sua senha nem tenta driblar o MFA tecnicamente — ele induz você a autorizar voluntariamente o acesso por meio de um fluxo de autenticação legítimo. O MFA é completado pela própria vítima durante o ataque. Políticas de Acesso Condicional são a camada de proteção mais eficaz contra essa técnica.

Como identificar o e-mail de phishing do Kali365? Os e-mails são difíceis de distinguir visualmente — a IA os torna convincentes. O sinal de alerta é comportamental: qualquer e-mail que solicite acesso a aka.ms/devicelogin com um código que você não gerou é um ataque de device code phishing. Solicitações legítimas só ocorrem quando o usuário está ativamente conectando um novo dispositivo.

Preciso trocar minha senha se fui vítima? Sim, mas não é suficiente. O atacante possui um token OAuth válido que funciona independentemente da senha. É imprescindível revogar as sessões explicitamente no Microsoft Entra e, só então, redefinir a senha.

Antivírus ou EDR detectam o Kali365? Em geral, não. O Kali365 não instala malware no dispositivo — o ataque acontece inteiramente dentro do ecossistema Microsoft, sem execução de código local. A detecção deve ser feita por ferramentas de monitoramento de identidade como o Microsoft Defender for Identity ou Defender for Cloud Apps.


O Kali365 representa uma mudança de patamar no cenário de ameaças a organizações: ataques altamente sofisticados, tornados acessíveis a qualquer criminoso com uma assinatura no Telegram. A combinação de IA para geração de iscas convincentes, automação de campanhas e um vetor que contorna o MFA cria um cenário em que as defesas tradicionais são insuficientes.

A resposta passa por três frentes simultâneas: tecnologia (Acesso Condicional, auditoria de OAuth), processos (monitoramento contínuo de logs de identidade) e pessoas (treinamento específico sobre device code phishing). As três, juntas.

Fontes e referências:

Alertas de Segurança

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Especialistas em cibersegurança dedicados a tornar a segurança digital acessível para todos os brasileiros. Nosso objetivo é educar e proteger.

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